A trajetória de fibra e honra do coronel Romão Vilaça
Da recusa ao Exército à vanguarda no combate ao crime urbano, as quatro décadas de um oficial que marcou a história da PMERJ através da inteligência, da retidão operacional e do amor incondicional aos seus irmãos de farda, não importando a patente ou graduação.

No dia 1º de dezembro de 1983, quando o jovem Romão Roberto de Mello Vilaça recebeu a sua espada de aspirante a Oficial pelas mãos de sua mãe e madrinha, Dorotéia, consolidava-se ali o início de uma das trajetórias mais emblemáticas da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). Atravessando as décadas mais violentas do cenário fluminense, o oficial, que mais tarde se tornaria coronel, secretário de Segurança e autor literário, forjou seu legado no binômio da inteligência estratégica da “P/2” (Serviço Reservado) e no cumprimento inflexível da lei, deixando marcas indeléveis nos batalhões por onde passou.

O destino escrito de farda
Poucos sabem, mas o destino do coronel Vilaça quase tomou rumo diferente. Classificado em 3º lugar no CPOR do Exército Brasileiro, ele ouviu de seu capitão EB que deveria tentar a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Foi necessária a intervenção direta de um coronel do Comando Militar do Leste (CML) para que sua liberação para a Polícia Militar fosse assinada.
O espírito de corpo e liderança também foi lapidado no esporte: armador habilidoso no basquete (graças à sua visão tática), o oficial colecionou medalhas no handebol, futsal e futebol de campo, chegando ao vice-campeonato nos Jogos das Academias no Barro Branco (PMESP).

O batismo de fogo e a “época de ouro”
Promovido a tenente, Vilaça assumiu o Serviço Reservado (P/2) do 9º BPM (Rocha Miranda), apesar de ser vaga de oficial superior (major) iniciando um período de enfrentamento cirúrgico ao crime. Em setembro de 1987, sua equipe apreendeu uma metralhadora URU na padaria do então maior traficante do Rio, “CY de Acari”.
Quando o advogado da quadrilha tentou uma representação contra o tenente, o comandante da unidade, coronel Ile Marlen Lobo Pereira, rasgou o documento na frente do oficial, demonstrando o que significava o verdadeiro comando.
O risco era diário. Em fevereiro de 1988, Vilaça foi baleado no braço direito ao estourar uma boca de fumo em Vigário Geral, estilhaços que carrega no corpo até hoje.
Dias depois, prendeu assaltantes ligados ao traficante Escadinha, recuperando o carro de um Juiz de Direito que fez questão de ir à delegacia agradecer. O reconhecimento viria também com a neutralização do violento traficante “Tunicão”, do Coroado, que havia assassinado um policial do batalhão.
A tática da asfixia
Em junho de 1989, após dois militares desertarem do Exército levando fuzis para Vigário Geral, o alto staff das Forças Armadas planejou uma megaoperação com mandado de busca coletiva. Convocado ao gabinete pelo coronel Emir Larangeira, então comandante do 9°BPM, o jovem tenente Vilaça surpreendeu os generais presentes: “Coronel, preciso somente de uma semana e trago sua arma de volta”.
Cumprindo a promessa, implementou uma sufocante “Operação Asfixia” diuturna em toda da comunidade. Pressionados pela interrupção dos lucros, os próprios traficantes locais devolveram o fuzil e executaram os desertores que haviam atraído o problema.
Vanguarda contra o crack e o comando de Botafogo
Promovido a capitão no 21º BPM (São João de Meriti), Vilaça esteve na vanguarda da segurança pública ao coordenar, na localidade de Vila Norma, uma das primeiras grandes apreensões de crack do Estado do Rio de Janeiro, desarticulando a logística de criminosos ligados a Marcinho VP.
O sucesso e a integração com as forças federais renderam à sua equipe e ao saudoso subchefe, tenente Ernesto, um elogio oficial do III COMAR (Força Aérea Brasileira).
Anos mais tarde, ao assumir o comando do 2º BPM (Botafogo), Zona Sul da capital, o agora coronel Vilaça provou que a retidão começava dentro de casa. Ao receber a denúncia de um Tenente sobre o envolvimento de policiais em crimes, marchou imediatamente até o comandante-geral, coronel Hotz, e exigiu a instauração de um Inquérito Policial Militar (IPM). “Descobrimos o desvio e a lei nos impedia de omitir. Procedemos conforme a Justiça”, relembra.
O Projeto VIGIA e o bunker na Zona Sul
Na Zona Sul, o coronel inovou com o “Projeto VIGIA”, integrando a PMERJ, Guarda Municipal, CBMERJ, 10ª DP e a Associação Comercial e Empresarial de Botafogo (ASEB). Essa relação de extrema confiança com a comunidade gerou frutos cinematográficos: em um telefonema direto para o gabinete do comandante, um morador anônimo denunciou um bunker subterrâneo climatizado onde se escondiam lideranças do tráfico.
A comunidade estava revoltada porque o chefe do crime havia atirado no cachorro de uma criança e só confiava em falar diretamente com o comandante do batalhão. O esconderijo foi estourado.
Após coordenar operações de grande impacto, como o apoio à ocupação da Rocinha e a recusa histórica de subornos milionários (como os R$ 2 milhões oferecidos pelo irmão de Celsinho da Vila Vintém à sua equipe da P/2), o coronel Romão Vilaça eternizou sua expertise tática e visão crítica no editorial “UPPs e o câncer urbano – A metástase da criminalidade: uma análise crítica”. Mesmo na reserva, o amor à farda nunca esmaeceu. Em 2016, como Secretário de Segurança de São João de Meriti, fez questão de celebrar o aniversário do 31º BPM (Barra da Tijuca), unidade que comandou e onde jamais esqueceu seus “irmãos de armas”. Uma trajetória que continua inspirando as novas gerações de oficiais.
De formação católica, o cel. Vilaça afirma que, apesar de ter comandado 8 unidades operacionais da PM e possuir diversas medalhas, o currículo e o mérito não lhe trazem vaidade, somente orgulho.
Perfil profissional no Instagram
Para conferir o acervo completo de fotos, recortes de jornais da época e documentos históricos desta brilhante carreira, acesse o perfil profissional no Instagram: @vilacanoprofissional





















